19 de dez. de 2014

Mestre

 Entrou na sala e se apresentou. Um período de silêncio por parte da turma que já entrosada questionava a origem daqueles olhos puxados. Chinês? Japonês? Coreano? Sinto que até hoje, muitos ainda se perguntam, mas sem êxito da resposta.
 Falam que ser professor, nos dias de hoje, não vale a pena. Discordo! Se for pra ser a metade da centésima parte de um por cento que essa simplória pessoa é, já vale uma vida. Mais do que um ser exaltado de conhecimento, sua habilidade de propagar tal virtude é fenomenal.
 Não precisei de muito tempo para gostar de Literatura, bastou ouvir a singela voz dele acompanhando os slides do barquinho. Aliás, aquele barquinho me proporcionou diversos momentos de reflexão. Pude me afogar diversas vezes nas águas da imaginação e do conhecimento.
 Numa conversa com ele, ouvi que um de seus sonhos era mudar a vida de no mínimo três pessoas na escola (Pois é, até anjos sonham!). Posso lhe dizer que só faltam dois. A sua importância na minha vida foi de tamanha grandeza que mudou não só o meu jeito de pensar, mas também de agir. Se hoje escrevo um blog é por sua culpa (E do Gregório, é claro). Se recebo elogios é por sua culpa. Se manifesto uma opinião é bem provável que seja culpa sua. Enfim, a sua educação foi transmitida em todos os sentidos. Ele não fez somente vestibulandos. Fez pessoas de caráter.
 Definir-lhe é uma tarefa tão árdua, que se por ventura me faltar vocabulário, basta voltar a ouvir sua singela voz. Hoje eu sei a resposta da origem de seus olhos. O deslumbrante ser provido de conhecimento veio da Pasárgada. (Não existiria um lugar tão perfeito quanto esse, pelo menos na visão de um literário, que o velhinho poderia ter vindo). E se me dissessem que estou enganado, que na verdade veio dos céus, faria todo sentido para mim.

 Professor Vitor Dias, se for preciso gritar (MIL, MIL, MIL) vezes o quanto você mudou minha vida, gritarei! Se for preciso escrever, escreverei! Se for preciso cantar o rap do Soneto, cantarei! Só te peço uma coisa em troca. Um "Aquele Abraço!".

16 de dez. de 2014

O copo

(em casa). Lá vai o Gabriel, limpa um, dois, três e chuta... Placht! Caceta, quebrei o copo do Vasco do meu pai! E agora? É o copo preferido dele. A taça que ele ganhou do meu avô. Vou falar pra ele que fui pegar pra beber e deixei cair. Não faria sentido. Sei muito bem que ele não quer ninguém bebendo no copo dele. Pra que eu fui jogar bola em casa? Tinha prometido pra mim mesmo que depois do espelho quebrado nunca mais jogaria. Na verdade, acho que prometi depois das surras de cinto do meu pai. Dessa vez eu tô lascado.  Preciso arrumar um jeito de não apanhar dessa vez. Se eu chorar copiosamente, falar que me arrependi e repetir freneticamente a frase "Por favor, pai, não me bate!" talvez ele só me bote no quarto de castigo. Posso falar a verdade, até porque uma mentira me afligiria por pelo menos umas quatro semanas. Mas do que adianta uma verdade doída (literalmente) se posso ter uma mentira? Pensa Gabriel, pensa! Já sei, vou catar tudo, jogar fora e esse segredo ficará comigo até ele procurar o copo pra beber cerveja. Depois disso, eu posso me fazer de desentendido. Aliás, sou muito bom nisso. Agora entendendo o motivo da minha mãe me chamar de sonso (e quando ela me chamava disso, eu me fazia de desentendido). Uhin (Porta abrindo). Pronto, ele chegou! Não respira, Gabriel. Finja que nada aconteceu.
- Gabriel, que cara é essa?
- Hãn? Nada.
- Sua mãe chegou?
- Não...
- Tem certeza que não aconteceu nada?
- Tenho!
- Que caco de vidro é aquele ali no chão?
- Vou pegar o sinto, pai...

No fim das contas, eu levei uns bons cascudos. Nós não acreditamos nunca que algum desastre vá acontecer conosco, até que acontece. Normalmente, esses desastres são sem volta e não há nada pior do que um problema sem conserto. Foi apenas um copo, mas poderia ser algo muito mais relevante. Enfim, dessa vez eu prometo, juro aos céus, sem dedos cruzados, que nunca mais jogarei bola em casa. Nunca mais.

9 de dez. de 2014

Época previsível

Época de Natal é um dos momentos do ano mais clichê que existe. Sempre tem a boa e velha rabanada. Tem também o bolinho de bacalhau feito pela avó e o peru preparado pela mãe. Fora falar da repleta ceia recheada de nozes, passas, arroz com passas, frango com passas, bolo com passas e até passas com passas. Ainda tem aqueles "pisca-piscas" enrolados pela casa inteira e uma árvore rodeada de enfeites. Existe algo mais clichê no Natal do que os tios? Tem um que gruda nos pastéis como aperitivo pra cerveja, tem outro que torce pra ter pavê e assim fazer a famosa piada do "pavê ou pra comê?" (Aliás, minha mãe cortou o pavê por causa disso). Ah, e como não lembrar da tia solteira que sempre é uma das primeiras a ir embora? Não posso esquecer do cara chato que come panetone de frutas cristalizadas. Muito menos do primo comilão que acaba com o pudim. E, claro, devo ressaltar as histórias de avô sobre o passado. Isso tudo é Natal! Por mais brando e previsível que seja, é Natal! Por mais simples e momentâneo que seja, é Natal! E que, em cada rabanada, cada panetone, cada passas, existirá a sensação de novidade naquele espetáculo. E, em meios de cartas pra Papai Noel e festas em família, a representação do Natal continua sobre os sonhos mais fantasiados de uma pessoa. Desejo que nesse ano, o Natal clichê aconteça novamente, se depender de mim, estarei lá comendo um delicioso panetone de frutas cristalizadas.