16 de dez. de 2014

O copo

(em casa). Lá vai o Gabriel, limpa um, dois, três e chuta... Placht! Caceta, quebrei o copo do Vasco do meu pai! E agora? É o copo preferido dele. A taça que ele ganhou do meu avô. Vou falar pra ele que fui pegar pra beber e deixei cair. Não faria sentido. Sei muito bem que ele não quer ninguém bebendo no copo dele. Pra que eu fui jogar bola em casa? Tinha prometido pra mim mesmo que depois do espelho quebrado nunca mais jogaria. Na verdade, acho que prometi depois das surras de cinto do meu pai. Dessa vez eu tô lascado.  Preciso arrumar um jeito de não apanhar dessa vez. Se eu chorar copiosamente, falar que me arrependi e repetir freneticamente a frase "Por favor, pai, não me bate!" talvez ele só me bote no quarto de castigo. Posso falar a verdade, até porque uma mentira me afligiria por pelo menos umas quatro semanas. Mas do que adianta uma verdade doída (literalmente) se posso ter uma mentira? Pensa Gabriel, pensa! Já sei, vou catar tudo, jogar fora e esse segredo ficará comigo até ele procurar o copo pra beber cerveja. Depois disso, eu posso me fazer de desentendido. Aliás, sou muito bom nisso. Agora entendendo o motivo da minha mãe me chamar de sonso (e quando ela me chamava disso, eu me fazia de desentendido). Uhin (Porta abrindo). Pronto, ele chegou! Não respira, Gabriel. Finja que nada aconteceu.
- Gabriel, que cara é essa?
- Hãn? Nada.
- Sua mãe chegou?
- Não...
- Tem certeza que não aconteceu nada?
- Tenho!
- Que caco de vidro é aquele ali no chão?
- Vou pegar o sinto, pai...

No fim das contas, eu levei uns bons cascudos. Nós não acreditamos nunca que algum desastre vá acontecer conosco, até que acontece. Normalmente, esses desastres são sem volta e não há nada pior do que um problema sem conserto. Foi apenas um copo, mas poderia ser algo muito mais relevante. Enfim, dessa vez eu prometo, juro aos céus, sem dedos cruzados, que nunca mais jogarei bola em casa. Nunca mais.

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